Joãozinho e a empresa « Agile Way


24 de Setembro de 2009

Joãozinho e a empresa

Joãozinho está feliz. Acabou de receber a notícia de que fora admitido em uma importante empresa da sua região. Lutou muito pela vaga. Concorreu com outros vinte candidatos e via a empresa como a mais alinhada com seus valores e ideais. Uma empresa que sempre sonhara em trabalhar.

A ansiedade era imensa. Iria começar no dia seguinte. Foi para a frente do espelho e ensaiou algumas palavras que diria a seus novos colegas. Falara durante a ultima semana quase que diariamente com um dos seus chefes. Estava se sentindo até íntimo. Não queria fazer feio. Estava muito empolgado.Joãozinho é uma pessoa dinâmica e cheia de ideias. Valoriza as pessoas, adora trabalhar em equipe e se considera um bom desenvolvedor. Não tem receio de fazer cursos, ler livros ou, se for o caso, aprender na marra mesmo. Prometeu a si mesmo que iria se dedicar demais a sua nova empresa.

Acordou no dia seguinte animado. Colocou uma roupa discreta, que não passasse nenhuma impressão errada (afinal era seu primeiro dia) e dirigiu-se a empresa. Sentiu-se ansioso durante o trajeto mas perguntava-se a si mesmo: “O que poderia dar errado?”.

Chegou na recepção e se apresentou a secretária, muito simpática, que solicitou que ele aguardasse um pouco. Ficou admirando o ambiente enquanto aguardava. Tentou puxar conversa com a secretária, mas ela teve que interromper para atender um telefonema interno. Notou que ela disfarçava a voz para não parecer nervosa. Procurou não prestar atenção nisso, mas percebeu que, ao desligar, ela pronunciou algumas palavras não muito afeitas.

Quinze minutos de espera depois, ele foi chamado até a sala dos diretores. Atravessou um corredor onde passou por diversos colegas que mal repararam a sua presença. Entrou na sala dos seus chefes com um largo sorriso e foi direto apertar a mão daquele que havia conversado durante a última semana.

Recebeu um frio aperto de mão e ficou ali parado, aguardando alguma orientação. Fizeram algumas perguntas (as mesmas que haviam feito na entrevista) e ele se sentiu, por um momento, um completo desconhecido para aquelas pessoas, principalmente para aquele que havia conversado durante a ultima semana. Recebeu a orientação para se dirigir ao setor B para iniciar os trabalhos.

Durante o trajeto ficou pensando no que poderia ter acontecido para ser tratado de forma tão fria. Teria sido a negociação de salário? Deu os ombros e chegou a sua mesa, que estava entulhada de equipamentos estragados. Descobriu que ninguém do seu setor sabia que ele iniciaria hoje, sequer sabiam quem era ele. Apesar disso, seus novos colegas pareciam simpáticos e o ajudaram a limpar a mesa.

Já era meio-dia quando finalmente conseguiu ligar o seu computador. Foi almoçar, sozinho.

Na volta, procurou se informar quem seria o seu superior imediato. Descobriu que o gerente também não sabia que ele iniciaria hoje. Conversou rapidamente com ele – repetiu pela segunda vez as mesmas perguntas – e ao final foi orientado a ler um livro sobre os procedimentos da empresa. Foi então que descobriu que os procedimentos consistiam em um documento eletrônico, no computador, de 120 páginas. Que, aliás, ele não poderia imprimir na empresa – por contenção de custos.

Às 16h30 recebeu sua primeira tarefa. Corrigir um código em uma linguagem na qual ele não conhecia. Conversou com o seu gerente e recebeu a resposta de que “programação é tudo igual”. Joãozinho seria a única pessoa disponível para realizar o trabalho. “Vou fazer esta tarefa saltar aos olhos dos meus chefes!”, prometera a si mesmo.

Às 17h55 percebeu que todos começavam a se dirigir para ir embora, apenas as pessoas envolvidas em seu projeto (ou tarefa – ele não sabia bem) permaneciam. Perguntou a um dos colegas e descobriu que aquela tarefa era crítica e precisava ser finalizada naquele dia, pois o cliente estava furioso.

Sabendo do que esperava, foi buscar um café. Quando passou por um de seus chefes, cumprimentou alegremente, já sendo um pouco fingido. Para sua surpresa, seu chefe respondeu com um grunhido que ele não soube identificar se era um cumprimento ou alguma oração indígena.

Às 20h10 finalizou a sua tarefa. Graças a uma vasta pesquisa no Google, descobriu uma ferramenta que facilitou demais a programação, automatizando diversos procedimentos no código. Mostrou para seus colegas que acharam sensacional a idéia e logo adotaram. Quando falou que mostraria aos seus chefes, no dia seguinte, recebeu um misterioso “Boa sorte!”.

No dia seguinte, entrou na sala de seus chefes. Notou que eles não haviam “decorado” o seu nome ainda, mas fingiu que isso não o afetou. Apresentou a ferramenta dizendo todos os benefícios que havia comprovadamente atingido, inclusive auxiliando na programação da linguagem que não era o seu forte.

Os diretores se entreolharam, pediram para ele se sentar. Explicaram que ele estava ali para seguir os procedimentos da empresa, que ele havia sido contratado para realizar as tarefas que lhe foram passadas e que ele sequer conhecia a empresa. Quem era ele para já vir propôr mudanças? Quanto tempo ele achava que fora necessário para se definir os processos e procedimentos da empresa?

Joãozinho escutou tudo aquilo em silêncio. Não queria acreditar no que ouvia.

Seu gerente foi chamado e presenciou uma discussão entre o gerente e os diretores. Estava havendo uma falta de supervisão ali e uma quebra nos procedimentos. Onde estava o controle?

Após trinta minutos, sairam Joãozinho e o seu gerente, lado a lado, em direção ao setor B. No caminho, o gerente lhe disse, num tom ameaçador: “Espero que tenhas aprendido a lição” e ambos se dirigiram para sua mesa. Recebera seus primeiros (e únicos) feedbacks de seus superiores.

Joãozinho é uma pessoa dinâmica e cheia de ideias. Valoriza as pessoas, adora trabalhar em equipe e se considera um bom desenvolvedor. Não tem receio de fazer cursos, ler livros ou, se for o caso, aprender na marra mesmo. Prometera a si mesmo que iria se dedicar demais a sua nova empresa.

Em apenas dois dias, ou dezesseis horas mais ou menos, tomou a decisão que iria permanecer apenas seis meses na empresa. E que seguiria todos os processos e procedimentos. Não iria propôr nada, apenas seguir ordens. Durante estes seis meses, iria sorrir em todos eventos da empresa. Afinal de contas, esta era a empresa mais alinhada com seus valores e ideais. Uma empresa que sempre sonhara em trabalhar.



6 Comentários para “Joãozinho e a empresa”

  1. Eleonor Vinicius diz:

    Ééé!!!

  2. Nossa área é cheia de joãozinhos, gerentinhos e processinhos….

    É triste quando as pessoas são podadas e enquadradas desse jeito.

    Abs.

  3. Gabriel diz:

    O pior é que quando a empresa acha que conseguiu moldar o funcionario, ja se foram os seis meses e ele pede a conta.(se for um bom profissional)

  4. Zézinho diz:

    Vc não disse o nome ( talvez por ser ficção ) mas eu trabalho nessa empresa. Espero ficar os 6 meses tb ( se eu aguentar )

  5. Lígia diz:

    Acontece de fato, lamentável. Ideias para renovar formas de fazer as coisas sempre podem ser pensadas e aplicadas, quando somam mesmo. Burocracia burra é enclausurante. Também tem o outro lado, gente. E quando o colaborador cheio de ideias não consegue implementar nada porque nem consegue mostrar aos colegas, menos ainda aos supervisores e gerentes os reais beneficios de suas ideias? Quando ele não é capaz de quantificar um esforço (horas de trabalho, por exemplo) e comparar com a economia que aquilo trará no dia dele e da empresa? Quando ele não entende a definição de prioridades numa escala empresarial e acha que é importante a empresa investir em tudo ao mesmo tempo? Ouvi essa semana, de um desenvolvedor renomado, que ideias brilhantes não se sustentam. O valor delas está na implementação. Se são implementáveis, e funcionam, aí sim é sucesso.

  6. [...] This post was mentioned on Twitter by José Ivo Amaral and Flávio Z. Fagundes, luciano Larrossa. luciano Larrossa said: Muito bom vale ler e comentar essa matéria!!! via @mabetiati: http://www.agileway.com.br/2009/09/24/joaozinho-e-a-empresa/ [...]

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