A companhia de telecomunicações da França foi assolada por 24 suicídios de funcionários, que atribuiram o clima da empresa como principal motivação para os seus atos desesperados.
Nunca a cultura organizacional, somada a cultura do país, foi posta à prova de forma tão evidente.Hoje, 05 de outubro, o CEO pediu demissão do cargo após o vigésimo-quarto suicídio. Em julho, o CEO havia dito que “se matar havia se tornado moda”, num daqueles típicos comentários infames que uma autoridade de uma empresa jamais pode falar. A taxa de suicídios da empresa é similar à média nacional!
Mas qual o motivo disso? Pressão excessiva? Chefes tiranos? “Bullying” empresarial?
A grande explicação está na grande diferença entre a cultura francesa e a cultura da empresa. A France Telecom foi privatizada em 1997 adotando um modelo de negócios mais agressivo e orientado a resultados. Metas começaram a ser exigidas, meritocracia (promoções por mérito) e eficiência são as palavras da vez na empresa. Ora, que empresa mundial no mundo capitalista não tem isso? A Ambev é conhecida por ter uma agressividade, neste aspecto. Nem por isso vemos pessoas se matando por aí.
O problema é a cultura francesa. Na França, a jornada de trabalho é menor, um salário mínimo polpudo, férias prolongadas e aposentadoria precoce. Há ainda uma legislação trabalhista que dificulta as demissões. Some a isso o fato da taxa de desemprego dos jovens ser de 25%, a crise mundial ter afetado bastante a economia francesa a ponto de empresas estarem repensando essas regalias…
O resultado é um choque de culturas talvez inédito em um país desenvolvido.
No Japão, muitos suicídios de pessoas eram atribuídos a demissões. Mas a cultura japonesa era forte em relação a isto. Japoneses faziam a vida nas empresas. Ambas culturas já estavam alinhadas. A adaptação para um capitalismo foi difícil, mas foi através disso que surgiram coisas como Kanban, Toyota’s way…
A cultura organizacional deve ser adaptada a realidade dos países? É uma questão interessante para ser debatida. Mas até onde eu sei, a Dell, IBM, Coca-Cola, McDonalds, etc. não adaptam de forma radical suas culturas organizacionais aos países.
Ou será que a France Telecom possui alguma coisa interna que nós jamais saberemos?
Vale a reflexão.
PS: o artigo acima tem alguns trechos da reportagens de Juliana Cavaçana, que escreveu a matéria na Veja desta semana.
Para saber mais:
