Dizem que trabalhar é só ganhar dinheiro. Outros dizem que trabalhar é se auto-realizar. Ainda alguns dizem que é fazer o que gosta (cuidado com essa!). Existe uma verdade definitiva sobre isso? O que motivaria um voluntário, então?
Este texto a seguir é da minha amiga e ex-colega Mariana Freitas. Vale a pena ler e refletir.
Há algum tempo sonhei com uma cena que trago guardada como recordação de algo equivocado.
Numa reunião de comunicação interna com apresentação de novas diretrizes de uma empresa, o apresentador questionava os presentes sobre: “Por que as pessoas trabalham?”
Os participantes eram da área de criação e marketing. Ninguém respondeu prontamente. Refletiram e alguém começou a falar de “auto-realização”; trabalhar em algo desafiador que possibilitasse aprendizado e superação, que possibilitasse estar entre pessoas que possuem os mesmos interesses ou interesses complementares, o que trazia experiências enriquecedoras para a vida. Também falou de construir um trabalho, um portfólio, uma carreira que lhe permitisse se orgulhar e influenciar outras pessoas. Os ganhos financeiros obviamente estavam na lista de motivos que levavam alguém a trabalhar. E por essa via foram os demais argumentos.
O apresentador ouviu com atenção e mostrou a todos uma lista no seu slideshow, uma estatística feita a partir de pesquisas realizadas com alguns dos maiores talentos de grandes empresas (ex: Google), onde liderando o ranking das motivações das pessoas para o trabalho aparecia o dinheiro. Em segundo lugar o ambiente de trabalho e em terceiro não lembro mais. Mas o que importa aqui é discorrer sobre a aparente obviedade daquela resposta, que seria a resposta certa e todos titubearam e não acertaram diretamente o alvo.
Surgiu uma nuvem sutil no olhar do tutor: “como aquelas pessoas tão inteligentes e criativas não percebiam que as pessoas trabalham por dinheiro? Como não conseguiam perceber o óbvio? A resposta certa era, é e será di-nhei-ro. Repitam comigo: di-nhei-ro. Eles erraram a resposta. A resposta mais simples!”
Então todos os participantes estavam errados. O certo é o que estava sendo mostrado na tela. Aquele ranking retirado de alguma pesquisa de algum lugar.
Acordei, estiquei os braços, alonguei o pescoço e refleti bastante sobre esse sonho. Se os funcionários/colaboradores/whatever de uma empresa acreditam que a motivação está ligada em primeiro lugar à auto-realização ou se eles disserem que sua motivação está ligada ao sentimento de pertencimento a um grupo ou se disserem que sua motivação está ligada em primeiro lugar com o fato da empresa oferecer segurança, não importa.
Essa é a motivação correta. Seja qual for. A motivação é de quem fala.
As pessoas precisam adequar suas respostas e suas motivações (internas) ao que mostra uma pesquisa (externa)? E se uma empresa, um setor da empresa ou até mesmo uma pessoa for exceção? Peeeeein… resposta errada.
Perfis são absurdamente diferentes. Existem pessoas que colocam a perspectiva financeira em primeiro lugar, existem as pessoas que colocam a auto-realização em primeiro lugar, existem pessoas que colocam a segurança em primeiro lugar…
Quando olho a pirâmide das necessidades de maslow e comparo com os tipos mais variados de pessoas que conheço, acho que o conceito é bastante interessante e coerente com alguns contextos/perfis/épocas/etc mas sua generalização (como toda generalização) é rasa e não consegue dar conta da multiplicidade de tipos humanos e suas necessidades pessoais.
Quem passou pelos anos 80 sabe cantar aquela musiquinha dos Titãs, né: “a gente não quer só comida”. Embora, pelo visto tenha gente que quer só: comida, carro, macaco, praia, jornal, tobogã… euachotudoissoumsaco.
Que bom que foi só um sonho. Não gostaria de presenciar alguém falando bobagem sobre minhas motivações.
Texto de Mariana Freitas
[...] O erro das motivações erradas- Flavio Steffens (Agileway); [...]