Pessoas ou recursos? « Agile Way
29 de Dezembro de 2009

Pessoas ou recursos?

Eu já havia falado sobre este assunto anteriormente. Mas quero voltar a ele.

Porque ainda continuo escutando aqui e ali, empresas falando “recursos” para identificar as pessoas. Como se as pessoas fossem bens a serem consumidos durante um projeto. Seres inanimados. Material puro.

Veja abaixo o assunto sob a ótica de vários participantes da lista de discussão “scrumdevelopment”, onde (no momento) tem-se já 77 posts discutindo sobre o assunto.

Tudo começou com o post do Alan Dayley:

I find the term “resources” when applied to people to be demeaning at best and a lie.
- Resources labels people as inanimate, raw material.
- Resources implies that people can be consumed or used up.
- Resources defines people as fungible when they are not.
- Because of these points, the term as applied to people is NOT Agile.
There is a surprising amount of people in this community who apply the term to people. I am  consistently shocked that Agile practitioners continue to use the word “resources” to talk about people. Please change your culture so we can help change the “resource culture” at large.

De fato, ainda existe uma grande parte de agilistas (inclusive) que se referem a pessoas como “recursos”. Talvez seja culpa do maldito MS Project. Ou talvez seja culpa do que o Stephen Bobick menciona:

It’s not just for software developers.  Every company I have worked at as a Human Resources department.  I don’t think it is a winnable battle to change this mindset (unfortunately).

Não existe um nome pior para dar a um departamento que deveria cuidar dos interesses e do desenvolvimento das pessoas do que “Recursos Humanos”. Este nome soa tão duro, que parece que este é um item de quando eu jogava Starcraft ou Age of Empires, onde tínhamos que obter recursos para evoluir durante o jogo. “Vamos colher recursos humanos” ou “Preciso ir até aquela mina profunda para obter recursos humanos para evoluir de fase”. Recursos leva a gente a pensar em insumos. E é o que o Chet Hendrickson comenta:

When someone mentions resources, I usually ask if they mean iron ore and coal. When they say then mean people, I tell them that where I am from some guy named Lincoln made us stop calling them that.

O Michael James faz uma brincadeira bem interessante, levando o pensamento Lean até para a pronúncia da palavra. Segundo ele, recursos (resources) leva mais tempo para ser falado do que pessoas (people). Esforço desnecessário:

Ever notice “resources” takes longer to say than “people”? That means we’re going to extra effort not to think of them as human beings.

O Ron Jeffries defendeu que são apenas palavras, e que as ações são muito mais importantes. De fato, há uma verdade nisso. Mas, acredito que o que o Dennis Ruffer respondeu, ao Ron, também é preciso ser considerado:

Words are very important! While actions do “speak” louder than words, it is the words that direct our thoughts, and our thoughts direct our actions. If we do not choose our words carefully, how can our actions be interpreted as our thoughts intend?

Concordo com isso. As palavras ajudam a formar o pensamento. Se insistirmos nessa ideia de “recursos” ou qualquer outro termo que possa ser pejorativo na visão agil, como iremos de fato agir conforme o que pensamos? Mas o Ron Jeffries fez a tréplica que de fato é bastante comum…

I’m sorry but I can’t parse that sentence. I would prefer to be called a resource and treated well, to being called a human being and treated poorly. I have seen both happen, and I prefer the former.

Quantas empresas existem por aí que mudam o nome de “Recursos humanos” para algo mais bonitinho como “Departamento das pessoas” ou “Setor da alegria”, mas a empresa continua exorcizando qualquer tentativa de tratamento saudável aos seus colaboradores?

Então o Lance veio com essa observação sobre uma empresa que é tragicômica:

The other day, I heard of a company that has stopped using the word ‘resources’ to refer to programmers. They now call them ‘units’ instead. Chalk up one more big disgrace.

Que beleza!

O sempre sensato Tobias Mayer colocou algumas questões interessantes:

Look at the high rate of job-dissatisfaction and job-switching in our industry. Don’t you think there may be a connection?  If people were treated with love and respect instead of as a commodity to be used up and discarded don’t you think it is more likely they will develop loyalty for a company, and for their team/s and want to stay and grow there?  Having a CEO say “our people” rather than “our resources” would go a long way to create a warmer corporate environment.

Concordo com essa visão. A insatisfação no setor de tecnologia é muito alto. E grande parte disso poderia ser facilmente modificado apenas com algumas pequenas atitudes, como tratar as pessoas como … pessoas! E o Tobias completa:

It isn’t a battle.  It is a process of re-education.  Thinking of it as a battle, and then entering into the fray believing you have already lost is a sad place to find yourself in. Happily, most people in the Scrum community believe that change towards improvement is not only possible but inevitable.  If that were not the overriding belief, we’d not be where we are today.

Ótima observação. Se vamos considerar a questão “recursos” e “pessoas”, precisamos também estender isso ao resto do pensamento. Pensar nessa mudança como uma “batalha” não segue a mesma questão de palavras?

Numa visão mais otimista, o Hariprakash Agrawal diz:

From last 4-5 years, whenever I correct someone, nobody got offended and they accepted with smile. It is different thing that they still call “resource” out of their habit but it might change slowly.

Já percebi isso também. As pessoas não se ofendem mais caso a gente as corrija nesse quesito. Isso é bom! :)

O Laurent Bossavit trouxe uma questão de lógica interessante:

(ALL) people ARE NOT fungible;
SOME resources ARE fungible;
Therefore, “resources” implies fungible MORE than “people” does.

O termo fungible é traduzido como fungível, que é “aquilo que se gasta, que se consome com o primeiro uso”. Logo, é uma boa lógica.

O Jochen Krebs escreveu o que seria exatamente a minha conclusão deste post. Será que ele me copiou?

I believe creative software teams might be offended by “resource” because it is linked to manufacturing, where
resources are input, transformed and output. it might be the repetitive nature, conveyor belt style production process in which a large workforce is labeled as resources.

O termo “recurso” de fato remete à era industrial. Linha de produção, entrada, transformação, saída. Apertar parafusos, e não pensar. Talvez essa seja a principal conotação pejorativa que se tenha deste termo.

As mudanças para melhorar o ambiente de trabalho são sempre pequenas e sutis. Basta ter um pouco de boa vontade e aplicá-las na prática. E você, o que pensa disso?

Para ler o toda a discussão, acesse o post completo no Yahoogroups.



7 Comentários para “Pessoas ou recursos?”

  1. Eduardo Bobsin diz:

    Olá, Flávio!

    Acredito que um equívoco foi feito com o termo “recurso”. Em processos de produção ou manufatura, o termo pode se referir não somente ao que é transformado (ou o que é consumido), mas também ao [agente] que transforma o input (matéria prima, especificações, etc).

    Dessa forma, ampliando o uso do termo, recursos são qualquer entidade (tangível ou intangível) disponível para uso pelo processo produtivo. Seja espaço, maquinário, matéria prima, energia, pessoas, documentos, patentes…

    Dessa forma, eu concordo com o Ron. Se as pessoas forem tratadas adequadamente, não acredito que se ofendam de serem chamadas de recursos. :)

  2. Acho que o problema é como o termo recurso é usado no mundo da TI.

    Para quem estuda e pratica Lean, a palavra “resource” pode soar mais tranquila, mas sabemos como funciona isto no dia a dia dos projetos.

    Gostei da metáfora usada pelo @Peleteiro (http://twitter.com/peleteiro) no Agile Weekend, sobre as focas. Falou recurso, um bebê foca morre.

    Fica a imagem, para sensibilizar.
    http://animals.nationalgeographic.com/staticfiles/NGS/Shared/StaticFiles/animals/images/primary/harp-seal-baby.jpg

  3. Very nice summary, Flavio! Thanks.

    Even outside of the Agile community, I am finding many who no longer like applying the term “resources” to people. I have high hopes that this practice with eventually change.

    (Posso ler portugues suficentemente bem. Escrever e mais difficil. E com um teclado ingles, bem difficil!)

  4. Chitão diz:

    Concordo com o Bobsin, se os recursos (putz, matei uma foca http://i.ytimg.com/vi/CYVpizLrxoU/0.jpg) forem tratados como pessoas, não tem galho..

    O problema que vejo é que as coisas (onde trablaho) só acontecem depois de uma rebelião: seja uma mudança no processo, melhorar o produto, colocar uma água gelada pra galera beber, etc…
    Ninguém vem e te pergunta: ‘escuta aqui meu camarada, que tu acha de trabalhar aqui? o que podemos fazer pra que fique “menos pior”?’ E depois ficam de cara, dizendo que ‘ó, como é difícil reter PESSOAS na empresa’

    e depois vem chamar a gente de ‘colaborador’
    e colaboradores é uma palavra que me dá nos nervos..

  5. Chitão diz:

    Alias, ainda não temos água gelada, e a foto da foca deveria ser http://i.ytimg.com/vi/CYVpizLrxoU/0.jpg

  6. Eu acho que essa discussao de qual termo usar eh completamente inutil. Trate seu time como funcionarios convencionais e vc terah apenas funcionarios mediocres trabalhando com vc. Trate sua equipe como artistas, deh a eles a liberdade cabivel e terah obras ao inves de produtos comuns. Eh por isso que cada projeto novo deve ter espirito de startup. Bons profissionais gerenciam suas atividades e um bom lider normalmente eh aquele engenheiro Senior que estabelece a estrategia tecnologica, prioriza as issues e mantem o fluxo de entrega. Um bom time eh aquele que gera orgulho mutuo entre seus integrantes. O produto eh a feliz consequencia. Em times que funcionam bem, chamar alguem de recurso eh um detalhe irrelevante.

  7. Pelo que vi nas empresas, o pessoal nao gosta de ser chamado de recurso pelo fato de cair no mesmo monte de coisas que o Bobsin citou: eu, que trabalho, penso, uso minha critividade para realizar um trabalho dificil e cansativo sou colocado no mesmo nivel de um pc, um documento, uma maquina, uma caneta. Sendo tudo isso recurso, nao quero ser comparado a uma caneta, a um computador. Estes podem ser trocados e nada muda. Se eu for trocado, tudo muda. Vai vir outra pessoa, com outra experiencia, outra bagagem, outros conhecimentos, outra critividade, outra personalidade.

    É isso que chateia as pessoas. Um computador modelo ABC123 é exatamente igual a outro do mesmo modelo. Nao existem pessoas do mesmo modelo. Nao existem modelos de pessoas. Duas pessoas podem ter conhecimentos parecidos, mas todo o resto é diferente. Até a percepção de que a cadeira é boa ou nao de sentar e isso se tornar um problema dentro da empresa.

    E as pessoas gostam de ser tratadas de um jeito específico, sabendo que os outros sabem que elas sao diferentes umas das outras.

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