A revista americana Fast Company traz uma reportagem muito interessante na edição 141. Trata sobre um grupo de economistas do MIT que tem como principal objetivo rever a forma como combatemos a pobreza, a falta de educação e saúde no mundo.

Indo contra muitas teorias e teoremas matemáticos, eles utilizam o empirismo (e, por consequência, o PDCA) para realizar seus estudos e obter conclusões antes jamais imagináveis. Este post irá trazer um pouco deste interessante case.
A reportagem começa provocando: os países desenvolvidos gastam bilhões de dólares, por ano, no auxílio dos países subdesenvolvidos no mundo. Ainda assim, um milhão e meio de crianças morrem de diarréia, doenças antes erradicadas agora voltam a se alastrar, a fome cresceu em 2009, educação, saúde e higiene ainda são palavras distantes para muitas pessoas.
Afinal, para onde vai este dinheiro? Com certeza não é para o lugar certo.
Um trio de economistas do MIT (Abhijit Banerjee, Esther Duflo, e Rachel Glennerster) lideram um laboratório de estudos para tornar o combate a pobreza mais eficaz. O grupo se chama Jameel Poverty Action Lab (J-PAL).
O que torna o projeto um sucesso é exatamente o termo “lab” (laboratório). O grupo tem tido sucesso por utilizar pessoas reais em grupos, vilas ou vilarejos de países pobres, como cases para os experimentos. Apesar de parecer controverso, esse método já vastamente utilizado na medicina, tem trazido dados importantíssimos para mudar a forma como se enxerga os métodos de combate a pobreza.
Os estudos não são apenas teóricos para gerar cases e artigos científicos. Um simples laboratório com um grupo de crianças em um longínquo vilarejo da África gerou dados que já ajudaram coletivamente mais de 30 milhões de pessoas, desde fazendeiros no Kenya até famílias no Peru.
Isso é expressado pelo desejo do J-PAL: “Não queremos fazer um vilarejo feliz. Queremos mudar a vida de milhões de pessoas”.
O grupo questiona os métodos tradicionais de teorias econômicas, onde boa parte foi baseada em estudos antigos, quando dados e informações eram insuficientes. A volta do uso do empirismo (observar, experimentar, aprender) tem auxiliado o J-PAL a ter sucesso em sua empreitada.
O grupo conta muito com o trabalho em grupo. Eles entendem que sozinhos não teriam o poder dos trabalhos dos demais, que acabam sempre um completando o outro. Isso torna as conclusões mais ricas e fortes.
Os estudos do grupo oferecem uma poderosa ferramenta para ajudar a responder questões de difícil conclusão, como por exemplo: “Como provar que uma pessoa tem um bom trabalho porque ele trabalhou duro para isso, e não por sorte ou porque estudou em colégios melhores?”. Ao contrário de economistas tradicionais, que utilizariam teorias e se trancariam em suas salas para estudar a resposta, o grupo vai a campo e faz experimentos. “Se estivermos errados, estamos errados. Nós descobriremos em um ano”. E com resultados muito mais concretos do que teóricos.
Algumas perguntas e respostas que o grupo tem auxiliado a responder e discutir:
Q: Qual a melhor forma de combater a corrupção no desvio dos fundos: monitoração governamental ou participação popular? (Experimento realizado em 600 vilarejos na Indonesia).
A: A participação popular teve efeito insignificante, enquanto o monitoramento governamental reduziu a corrupção em 8%.
Q: Como os casais gerenciam a sua saúde financeira quando um ou outro passa a ter um aumento temporário na receita? (Experimento realizado com 142 casais no Kenya)
A: De forma ineficiente. Os maridos tendem a gastar o que recebem e ainda não compartilham com suas esposas. As esposas compartilham o “extra” e ainda não gastam quando recebem a mais.
Q: Como as bolsas-escolas afetam a vida dos estudantes e de suas famílias? (Experimento realizado com 10.000 crianças na Colômbia)
A: As crianças passam a serem mais assíduas nas escolas e tem suas notas melhoradas. Mas não houve uma melhora real na educação. Na família podem acontecer problemas, pois os pais tendem a darem preferência aos filhos que recebem dinheiro.
Q: O plano atual que gasta milhões de dólares indo de porta em porta, na África, para identificar e educar os portadores do HIV é efeito?
A: Não. Os portadores do HIV não mudam seus hábitos com essa “educação” que recebem. O dinheiro é ineficiente.
Estas são algumas questões que podem ajudar a mudar a forma como as organizações de auxílio trabalham com as pessoas.
O J-PAL ainda é bastante controverso, como qualquer nova abordagem. Alguns cientistas fazem cara feia, outros aprovam os métodos. O fato é que buscar evidências concretas e experimentar, ainda é a melhor forma de fazer ciência. O objetivo é fazer com que menos dinheiro seja utilizado, com resultados mais efetivos (ROI? Sim!).
O empirismo e o PDCA, neste caso, estão ajudando a combater as mazelas da civilização.
Você consegue fazer uma analogia ao seu mundo, seja de TI, marketing, ou qualquer outro?
Para pensar.

Muito boa essa mensagem Flávio. O interessante do PDCA é que ele alerta as pessoas para o que está por vir. Para uma comunidade provocará melhorias no seu Capital Social, pois as pessoas passam a se questionar mais e a fazer melhorias entre elas, como resultado temos uma forma diferente de fazer o desenvolvimento chegar ao inimaginável. Sem escassez ou com escassez o grupo está solucionando os problemas.
Interessante modus operandi, observo apenas certa incoerência na questão
“Q: Qual a melhor forma de combater a corrupção no desvio dos fundos: monitoração governamental ou participação popular? (Experimento realizado em 600 vilarejos na Indonesia).
A: A participação popular teve efeito insignificante, enquanto o monitoramento governamental reduziu a corrupção em 8%.”
Minha observação: Participação Popular é indicador de Democratização e não necessariamente Fiscalização.
A Participação geralmente significa opinar algo e acompanhar a implementação do sugerido dentro de um orçamento apresentado, mas não é o mesmo que governar ou fiscalizar detalhadamente ações no interior do governo e portanto não propicia os complicados meio de monitorar finanças para deter corrupção.
Já governos (Distritais, nacionais) dispõe de técnicos, dados, acessos, pressões financeiras e políticas, além de recursos jurídicos para monitarar e corrigir desvios de modo mais efetivo, como o próprio levantamento mostrou.
Então obteve-se uma resultante que desabona, por inadequação de parâmetros, a boa e necessária Participação Popular para a Democracia.
Achei muito legal como você abordou o PDCA deixando muito claro que essa ferramenta é poderosa e tem uma aplicabilidade muito grande.
Seu post também mostra que se observarmos a essência das ferramentas elas podem ser adaptadas e utilizadas numa gama muito grande aplicações. Exemplo: o post-it vermelho que usamos no SCRUM é a ferramenta Lean Andon adaptada as necessidades da gestão de projetos. Vemos kanbans disfarçados em supermercados, etc.
Acredito que o grande ‘barato’ disso tudo é a humanização do desenvolvimento/consultoria de sw/processos.
O J-PAL aplica técnicas empíricas e porque não dizer ágeis em seus estudos para identificar de forma rápida o que funciona e o que não funciona. Estão de parabéns!