Nokia N-Gage: um case de fracasso « Agile Way
18 de Janeiro de 2010

Nokia N-Gage: um case de fracasso

Quando pensamos em Nokia, logo pensamos em celulares confiáveis, robustos e de alto padrão de qualidade. De fato, a empresa continua sendo uma das preferidas do público no mundo todo. Mesmo com o advento do iPhone, a joint-venture da Sony com a Ericsson, a reinvenção da Motorola e a entrada de outras empresas como Dell, HTC, entre outras.

É uma empresa admirada no mundo ágil por ser uma das grandes a implantarem o Scrum. O “Nokia test” é usado até hoje para empresas verificarem se estão aplicando o Scrum ou um Agilefall ou Scrumbut.

Mas, como veremos neste post, nem uma empresa admirada como essa está imune a erros. E quando eu falo de erro, pensem na forma mais pejorativa. Pensem em um ralo sugando dinheiro. Pensem em algo que conseguiu manchar a imagem da empresa.

N-gage - www.agileway.com.brPensem no N-Gage.

Um autor comparou a Apple com a Nokia. E fez a seguinte constatação:

“O forte da Apple é o design. O forte da Nokia é a tecnologia”.

De fato. A Apple prima pela perfeição do seu “front-end”: design industrial e software. Praticamente a empresa vive de criar conceitos. Já a Nokia costuma estar um pé na frente na questão tecnologia, principalmente no “back-end”, especialmente o hardware dos celulares. Embora já tenha cometido um erro enorme ao afirmar, há alguns anos atrás, que não via potencial de investimento em smartphones touchscreen.

O conceito do N-Gage

Estamos em 2002. A Nokia desenvolve uma pesquisa para identificar tendências e o resultado indica que as pessoas estão se interessando por jogos em dispositivos móveis. E mais do que isso: as pessoas estariam dispostas a pagar e até relevar algumas limitações se o celular tivesse um potencial de entretenimento.

Alie-se a isso o posicionamento da Nokia, de enxergar o mercado de jogos com um potencial a ser explorado. Veio a idéia: “Criar um celular-console que seria revolucionário na parte de hardware, e também revolucionário no ecossistema de software”. O embrião do N-Gage estava formado.

A idéia foi bastante promissora. Os jogos deixariam de ser stand-alone para se tornarem multiplayer. Até mesmo “casual games” (jogos que o cara joga para passar o tempo) teriam potencial para partidas um contra o outro e pontuação online. Além disso, o hardware permitiria a introdução de aplicativos mais robustos, em 3D. Era a possibilidade de jogar Doom, Quake ou Tomb Rider no seu celular!

E ainda adicione a isso um processador potente (para a época), MP3, FM, internet e todas as funcionalidades que um smartphone precisa. Sim, é o celular que o público espera!

A Nokia estava otimista. Previa seis milhões de aparelhos vendidos, nos primeiros anos. Queria rivalizar com o Gameboy, inclusive.

Na prática

O celular foi lançado no segundo semestre de 2003. Visto pelo público como um daqueles gadgets que todos querem, mas que no fim das contas é meio inútil, as vendas foram terrivelmente baixas nas primeiras semanas. Já nos primeiros meses, o preço caiu pela metade, visando alavancar as vendas.

Chris Morris, escrevendo para a CNN disse:

“Este aparelho pode ser ótimo no papel. Mas é um desastre na execução.”

Comparando com o Gameboy, em determinado momento, a comparação entre as vendas de um e outro era de 100 Gameboys para 1 N-Gage. Um fracasso retumbante para a Nokia.

O celular teve sérios problemas de identidade. Smartphone? Celular? Console? Afinal, o que era? Isso contribuiu para a rejeição de muitos, principalmente os formadores de opiniões.

Dizem que o sucesso de um console é medido pela capacidade de gerar “killer apps” (programas matadores) num curto prazo. Para situá-lo: Nintendo e Mário Bros.; Sega e Sonic; Wii e Wii Sports; X-Box e Halo; Gameboy e Tetris; Playstation e Gran Turismo ou Pro Evolution Soccer.

O N-gage não teve um game que o sustentasse. Existiram bons jogos, mas nenhum que fosse o carro chefe do sistema. Além disso, foram poucos jogos inovadores: a maioria era uma adaptação de jogos de computador ou videogames, para o sistema. Quem iria preferir jogar Tomb Rider em um celular? Acrescente ainda o fato de que o aparelho, quando comprado, não vinha com jogo algum. Um erro de estratégia imenso.

Mas não era apenas o software que tinha problemas. O hardware, o orgulho da empresa, tinha coisas que só podem ter sido terceirizadas com alunos do primeiro semestre de engenharia … civil.

Taco, construção e a tela pequena

O formato de um “taco mexicano” se tornou característico deste celular e também motivo de chacota. Na internet, ele é normalmente referido e ilustrado ou como um taco, croissant ou um pastel.

Uma tela pequena também tornava a experiência dos jogos muito ruins. A navegação web (no caso, WAP) era lenta e quase todos sites eram de difícil leitura. O orientação vertical da tela transformava a experiência de jogar, navegar e acessar os aplicativos do celular, numa tarefa difícil.

A construção do aparelho também deixava muito a desejar, sendo ele visivelmente frágil.

Estes itens secundários foram bastante criticados durante a vida do N-Gage 1.0

Game cards

Você comprava jogos para o seu N-Gage… em um cartão MMC. Sim, algo como os cartuchos pequenos (cards) do GameBoy. e para evitar pirataria, o jogo era licenciado para apenas aquele celular.

Ok, mas e se você trocasse de celular? Compre outra vez o jogo, oras.

A resposta é absurda, mas ao que parece era a realidade. A Nokia utilizou um modelo de negócio tão absurdo que não pensou na comodidade do seu usuário. Além disso, com o tempo muitos jogos foram emulados em Java. A diferença era mínima, então por que alguém pagaria por um jogo se poderia jogá-lo legalmente de graça, em Java?

Calma, essa não é a melhor parte. Se estamos falando de um SMARTPHONE, estamos considerando que ele é um celular inteligente, certo? Ok. Você lembra como você fazia para trocar as fitas do seu antigo console de videogame como Atari, Nintendo, Super NES ou Mega Drive? Tinha que desligar o videogame e colocar a fita, para então religá-lo.

A Nokia trouxe esse conceito revival para o N-Gage. E de uma forma mais absurda ainda. O slot para inserir o MMC não estava ao alcance das mãos. Isso seria muito óbvio. Para você trocar de jogo, deveria seguir os seguintes passos:

1) Desligar o seu console… digo, celular.
2) Conseguir abrir a tampa traseira do console… digo, celular.
3) Retirar a bateria.
4) Retirar o cartão, caso haja algum, e colocar o seu jogo.
5) Colocar a bateria de volta.
6) Colocar a tampa de volta.
7) Religar o seu celular.

Tudo muito prático! São necessário em torno de 90 segundos, e você precisa estar em um local adequado… e o conceito de mobilidade, onde fica? Caso você duvide, veja esse vídeo com o passo a passo realizado (ele ainda insere o SIM CARD).

Mas este não era o auge do design industrial dos engenheiros e designers da Nokia.

Sidetalking

O termo “Sidetalking” (conversar de lado) virou o segundo nome do N-Gage. O motivo era que ninguém conseguiu entender o conceito avant-garde que os engenheiros e designers da empresa propuseram. Não bastava ter um celular no formato de um pastel/taco: você tinha que utilizá-lo de uma forma estranha.

Com a desculpa exposta pela própria Nokia de que a bochecha poderia manchar a tela do celular, a Nokia propôs uma forma diferente de interagir em chamadas de voz: O microfone e os auto-falantes eram do lado lateral do celular!

Você teria que falar ao seu celular da seguinte forma:

A careta não era necessária, mas era como a maioria dos usuários se sentia ao falar em seu N-Gage. Uma página sarcástica produzida pelo rapaz da foto fez sucesso na internet. O SideTalkin convidava os donos de N-Gage a enviarem fotos suas falando ao celular e, em seguida, a todos usuários a mostrarem como falar com outros aparelhos. O resultado foi um viral onde pessoas faziam “sidetalking” com videocassetes, mouses, teclados, televisões, cães, namorada, etc. Vale a pena ver.

O “sidetalking” foi tão característico do N-Gage que você pode entrar em vários blogs que falam do N-gage e você verá menções ou comentários sarcásticos mencionando o termo. A Nokia percebeu isso e quando lançou o novo aparelho, chamado N-Gage QD, corrigiu o “sidetalking” e fez uma brincadeira com os usuários. O vídeo você pode ver abaixo.

A brincadeira da Nokia teve um efeito contrário: o sidetalking foi potencializado pelo público. Os usuários começaram a debochar que queriam a “excelente idéia” da Nokia de volta. O N-Gage jamais conseguiria se desvenciliar desse termo.

Nokia QD

Muitos autores se perguntam o motivo da Nokia lançar um novo aparelho mantendo o nome que já estava associado a fracasso de vendas, design e hardware.

O Nokia QD corrigia muitos problemas do seu antecessor, mas ainda assim manteve a linha do fracasso da série. O fracasso do design Taco e de um smartphone com crise de identidade fez com que a Nokia cancelasse o desenvolvimento de um novo celular, o Nokia 7700. Curiosamente, o 7700 também teria o famoso “sidetalking”.

É interessante verificar algumas declarações malucas de pessoas da Nokia, sobre o aparelho. Gerard Wiener, gerente geral de desenvolvimento de jogos, disse antes do lançamento do N-Gage QD:

“Estamos estudando novas cores, uma nova aparência e um novo jeito para o QD, nos próximos meses”

Será que o público estava realmente preocupado com a COR do novo N-Gage?

Onde eles erraram?

Pesquisei bastante para escrever este artigo. E até agora não consegui encontrar nenhuma citação ou explicação da Nokia para indicar os motivos que os levaram a executar um projeto promissor de uma forma tão tosca. O projeto foi o foco da Nokia, a ponto de alocar seus melhores profissionais durante toda concepção e desenvolvimento.

O fato é que os celulares tiveram vida curta. A previsão de seis milhões de aparelhos vendidos (antes previsto só para o N-Gage, e depois para a soma do N-Gage + N-gage QD) jamais chegou perto de se concretizar. Números apontam para no máximo 2 milhões de aparelhos vendidos.

N-Gage foi associado sempre a adjetivos pejorativos, embora você encontre pessoas que o elogiem. O péssimo design e problemas de hardware fez com que os usuários associassem o aparelho a uma piada de mau gosto. Gamers e usuários do telefone não aprovaram o sistema.

Como disse Ewan, em seu post:

“O Siemens SX-1 foi concebido com o mesmo problema de game cards. Porém foi descartado logo no protótipo. Como é que a Nokia permitiu que isso fosse concebido no produto final?”

Note ainda o problema da própria concepção da idéia. Certos de que o futuro dos jogos em dispositivos móveis era promissor, a Nokia fez entrevistas com um nicho específico de pessoas: os americanos. O perfil deles não é uma tendência para o mundo inteiro, como a Nokia imaginou. Portanto a empresa partiu de preceitos não confiáveis para sua jornada. A empresa admitiu que realizou uma pergunta aos entrevistados, se eles se importariam com o “sidetalking”. E a resposta que receberam era “não”. Deu no que deu.

Para completar o circo, a logística de distribuição do produto foi bastante problemática. Pedidos eram feitos, mas não eram recebidos (problema que se estendeu até à plataforma do software), lojas não receberam o produto, enfim…

O produto foi descontinuado devido a aceitação do fato que o público e a imprensa especializada não mudaria sua opinião perante uma nova versão.

Posteriormente, o VP da empresa admitiu:

“Aprendemos que as pessoas querem jogar em todos os seus aparelhos. Então estamos integrando o sistema N-gage aos novos aparelhos da Nokia”.

O aparelho que sofria de crise de identidade logo foi deixado para trás pelo PSP, da Sony e o Nintendo DS, da Nintendo. No quesito telefone, não foi páreo para o iPhone. Perdendo nas duas frentes que deveria competir, o hardware foi descontinuado em meados de 2005/2006.

Como software, será descontinuado em Setembro de 2010. Será a data final de um produto promissor, de uma empresa promissora, que foi executado de uma forma inexplicavelmente irresponsável.

O N-Gage, como dizem alguns blogs, já saiu de fábrica com um enorme adesivo de FAIL. O aparelho é figura carimbada em qualquer TOP 10 ou TOP 5 dos piores celulares já desenvolvidos. E é assim que será conhecido na posteridade. Infelizmente, associado à marca Nokia.

Conclusão

Como uma empresa inovadora e inspiradora como a Nokia consegue desenvolver uma aberração como essa? Como eu disse, pouco se sabe dos motivos operacionais que a levaram a errar tanto. Arrogância? Ânsia de explorar e dominar um mercado promissor? Só o tempo dirá. O N-Gage foi um case de fracasso que a Nokia acabou nos presenteando para estudo.

Não foi um produto desenvolvido pensando no usuário (ou cliente). Como consequência, foi necessário o desenvolvimento de um novo produto (QD) para corrigir erros primários e crassos do original – e ainda assim retirando o rádio FM, por exemplo, o que desagradou uma grande parcela de usuários.

Produto funcional e entregue, outro valor ágil, teve uma nova conotação neste projeto. A definição de pronto abrangia monstruosidades como o SideTalking e o Game Cards Slot.

Foi um produto que tentou ser um console, um PDA e um telefone “all in one”. E não conseguiu ser satisfatório em nenhum dos seus objetivos.

Imaginem quantos milhões foram gastos neste projeto para só depois de anos eles admitirem o fracasso? Onde fica o “errar cedo para aprender”, nessa história?

Embora a Nokia só tenha implantado o Scrum e o Agile, pra valer, a partir de 2005, a empresa sempre teve uma essência ágil. E o projeto N-Gage, apesar de todos os cuidados que eles devem ter tido, foi um fracasso total.

Mas uma coisa vocês podem ter certeza: eles aprenderam com o erro. Os celulares da série N estão aí para mostrar como eles souberam virar o jogo e se tornar novamente uma empresa respeitada e admirada.

Para dois reviews bem interessantes, leia aqui e aqui.



14 Comentários para “Nokia N-Gage: um case de fracasso”

  1. Paulo diz:

    Na época não comprei pq não dá para jogar e atender o telefone, então não faz sentido ter os dois aparelhos em um só…. além disso, era caro demais….

  2. Rafael diz:

    Mesmo que pesquisas tenham sido feitas, me parece um belo caso de “achismo”, muito comum nas empresas, e principalmente, propagada por seres ditos “criativos”.

    Ótimo post.

  3. [...] This post was mentioned on Twitter by gisleine monique, Ponto Marketing. Ponto Marketing said: Dossiê (gigante) Nokia N-Gage: um case de fracasso – http://bit.ly/8KEo6y – Se tiver 2 horas livres, vale a pena ler. [...]

  4. Hugo Alves diz:

    Bastava uma pesquisa de mercado correta para o N-Gate ter se tornado um case de sucesso!

  5. yuri diz:

    voce e muito critico e esqueceu de resaltar as qualidades do ngage e o seu valor,hoje eu possuo um ngage classic e todos gostam dele e querem compra de mim.

  6. jonathan diz:

    eu sou infelismente o dono de um n gagemas o pior disso e o problema wsod(tela branca da morte) onde o celular praticamente se suicida nao liga por falta de memoria e a nokia nem resposta da.

  7. jonathan diz:

    eu sou infelismente o dono de um n gage mas o pior disso e o problema wsod(tela branca da morte) onde o celular praticamente se suicida nao liga por falta de memoria e a nokia nem resposta da.

  8. Bruno Silva diz:

    Possuo um psp,ps3 e um n-gage..Acho que vc conversa demais o celular é otimo para jogos e para tudo..afff

  9. marco aguiar diz:

    Bruno Silva! concordo com vc! As pessoas gostam de criticar demais! Nada pra elas está bom! Imagina se td fosse como antigamente q nem celular nem video game portatil existia? Talvez se alguns vivessem nesta época, parassem de reclamar um pouco das coisas!

  10. Jajajajajajajjjajaka diz:

    i used to like the ngage. but then i took an arrow in my knee.

  11. roberto nascimento diz:

    e isso ai eu tambem tenho um n-gage classic e um n-gage qd e sao otimo eu amo a n-gage queria que isso tivesse continuado prefiro 1000 vezes jogar num n-gage que no nintendo ds so pesso que pensem um pouco antes de falar tao mal dos n-gage

  12. andre diz:

    Eu tb tive um n-gage e amava jogar com ele!!!para a epoca nao existia nada melhor que esse 3 em 1!!!

  13. DIOGO diz:

    Li o que escreveste.. e so mostra que nao tiveste nenhum n-gage .. o grande problema do n-gage foi o seu preço inicial.. que era mesmo muito caro… e ele nao valia o dinheiro.. se o n-gage fosse barato toda a gente jovem adepta de jogo iria ter um.. queres comparar 1 n-gage com 1 gameboy? antes de escreveres noticias informa-te…

  14. [...] Nokia N-Gage: um case de fracasso [...]

Comentar