Quando pensamos em Nokia, logo pensamos em celulares confiáveis, robustos e de alto padrão de qualidade. De fato, a empresa continua sendo uma das preferidas do público no mundo todo. Mesmo com o advento do iPhone, a joint-venture da Sony com a Ericsson, a reinvenção da Motorola e a entrada de outras empresas como Dell, HTC, entre outras.
É uma empresa admirada no mundo ágil por ser uma das grandes a implantarem o Scrum. O “Nokia test” é usado até hoje para empresas verificarem se estão aplicando o Scrum ou um Agilefall ou Scrumbut.
Mas, como veremos neste post, nem uma empresa admirada como essa está imune a erros. E quando eu falo de erro, pensem na forma mais pejorativa. Pensem em um ralo sugando dinheiro. Pensem em algo que conseguiu manchar a imagem da empresa.
Pensem no N-Gage.
Um autor comparou a Apple com a Nokia. E fez a seguinte constatação:
“O forte da Apple é o design. O forte da Nokia é a tecnologia”.
De fato. A Apple prima pela perfeição do seu “front-end”: design industrial e software. Praticamente a empresa vive de criar conceitos. Já a Nokia costuma estar um pé na frente na questão tecnologia, principalmente no “back-end”, especialmente o hardware dos celulares. Embora já tenha cometido um erro enorme ao afirmar, há alguns anos atrás, que não via potencial de investimento em smartphones touchscreen.
O conceito do N-Gage
Estamos em 2002. A Nokia desenvolve uma pesquisa para identificar tendências e o resultado indica que as pessoas estão se interessando por jogos em dispositivos móveis. E mais do que isso: as pessoas estariam dispostas a pagar e até relevar algumas limitações se o celular tivesse um potencial de entretenimento.
Alie-se a isso o posicionamento da Nokia, de enxergar o mercado de jogos com um potencial a ser explorado. Veio a idéia: “Criar um celular-console que seria revolucionário na parte de hardware, e também revolucionário no ecossistema de software”. O embrião do N-Gage estava formado.
A idéia foi bastante promissora. Os jogos deixariam de ser stand-alone para se tornarem multiplayer. Até mesmo “casual games” (jogos que o cara joga para passar o tempo) teriam potencial para partidas um contra o outro e pontuação online. Além disso, o hardware permitiria a introdução de aplicativos mais robustos, em 3D. Era a possibilidade de jogar Doom, Quake ou Tomb Rider no seu celular!
E ainda adicione a isso um processador potente (para a época), MP3, FM, internet e todas as funcionalidades que um smartphone precisa. Sim, é o celular que o público espera!
A Nokia estava otimista. Previa seis milhões de aparelhos vendidos, nos primeiros anos. Queria rivalizar com o Gameboy, inclusive.
Na prática
O celular foi lançado no segundo semestre de 2003. Visto pelo público como um daqueles gadgets que todos querem, mas que no fim das contas é meio inútil, as vendas foram terrivelmente baixas nas primeiras semanas. Já nos primeiros meses, o preço caiu pela metade, visando alavancar as vendas.
Chris Morris, escrevendo para a CNN disse:
“Este aparelho pode ser ótimo no papel. Mas é um desastre na execução.”
Comparando com o Gameboy, em determinado momento, a comparação entre as vendas de um e outro era de 100 Gameboys para 1 N-Gage. Um fracasso retumbante para a Nokia.
O celular teve sérios problemas de identidade. Smartphone? Celular? Console? Afinal, o que era? Isso contribuiu para a rejeição de muitos, principalmente os formadores de opiniões.
Dizem que o sucesso de um console é medido pela capacidade de gerar “killer apps” (programas matadores) num curto prazo. Para situá-lo: Nintendo e Mário Bros.; Sega e Sonic; Wii e Wii Sports; X-Box e Halo; Gameboy e Tetris; Playstation e Gran Turismo ou Pro Evolution Soccer.
O N-gage não teve um game que o sustentasse. Existiram bons jogos, mas nenhum que fosse o carro chefe do sistema. Além disso, foram poucos jogos inovadores: a maioria era uma adaptação de jogos de computador ou videogames, para o sistema. Quem iria preferir jogar Tomb Rider em um celular? Acrescente ainda o fato de que o aparelho, quando comprado, não vinha com jogo algum. Um erro de estratégia imenso.
Mas não era apenas o software que tinha problemas. O hardware, o orgulho da empresa, tinha coisas que só podem ter sido terceirizadas com alunos do primeiro semestre de engenharia … civil.
Taco, construção e a tela pequena
O formato de um “taco mexicano” se tornou característico deste celular e também motivo de chacota. Na internet, ele é normalmente referido e ilustrado ou como um taco, croissant ou um pastel.
Uma tela pequena também tornava a experiência dos jogos muito ruins. A navegação web (no caso, WAP) era lenta e quase todos sites eram de difícil leitura. O orientação vertical da tela transformava a experiência de jogar, navegar e acessar os aplicativos do celular, numa tarefa difícil.
A construção do aparelho também deixava muito a desejar, sendo ele visivelmente frágil.
Estes itens secundários foram bastante criticados durante a vida do N-Gage 1.0
Game cards
Você comprava jogos para o seu N-Gage… em um cartão MMC. Sim, algo como os cartuchos pequenos (cards) do GameBoy. e para evitar pirataria, o jogo era licenciado para apenas aquele celular.
Ok, mas e se você trocasse de celular? Compre outra vez o jogo, oras.
A resposta é absurda, mas ao que parece era a realidade. A Nokia utilizou um modelo de negócio tão absurdo que não pensou na comodidade do seu usuário. Além disso, com o tempo muitos jogos foram emulados em Java. A diferença era mínima, então por que alguém pagaria por um jogo se poderia jogá-lo legalmente de graça, em Java?
Calma, essa não é a melhor parte. Se estamos falando de um SMARTPHONE, estamos considerando que ele é um celular inteligente, certo? Ok. Você lembra como você fazia para trocar as fitas do seu antigo console de videogame como Atari, Nintendo, Super NES ou Mega Drive? Tinha que desligar o videogame e colocar a fita, para então religá-lo.
A Nokia trouxe esse conceito revival para o N-Gage. E de uma forma mais absurda ainda. O slot para inserir o MMC não estava ao alcance das mãos. Isso seria muito óbvio. Para você trocar de jogo, deveria seguir os seguintes passos:
1) Desligar o seu console… digo, celular.
2) Conseguir abrir a tampa traseira do console… digo, celular.
3) Retirar a bateria.
4) Retirar o cartão, caso haja algum, e colocar o seu jogo.
5) Colocar a bateria de volta.
6) Colocar a tampa de volta.
7) Religar o seu celular.
Tudo muito prático! São necessário em torno de 90 segundos, e você precisa estar em um local adequado… e o conceito de mobilidade, onde fica? Caso você duvide, veja esse vídeo com o passo a passo realizado (ele ainda insere o SIM CARD).
Mas este não era o auge do design industrial dos engenheiros e designers da Nokia.
Sidetalking
O termo “Sidetalking” (conversar de lado) virou o segundo nome do N-Gage. O motivo era que ninguém conseguiu entender o conceito avant-garde que os engenheiros e designers da empresa propuseram. Não bastava ter um celular no formato de um pastel/taco: você tinha que utilizá-lo de uma forma estranha.
Com a desculpa exposta pela própria Nokia de que a bochecha poderia manchar a tela do celular, a Nokia propôs uma forma diferente de interagir em chamadas de voz: O microfone e os auto-falantes eram do lado lateral do celular!
Você teria que falar ao seu celular da seguinte forma:

A careta não era necessária, mas era como a maioria dos usuários se sentia ao falar em seu N-Gage. Uma página sarcástica produzida pelo rapaz da foto fez sucesso na internet. O SideTalkin convidava os donos de N-Gage a enviarem fotos suas falando ao celular e, em seguida, a todos usuários a mostrarem como falar com outros aparelhos. O resultado foi um viral onde pessoas faziam “sidetalking” com videocassetes, mouses, teclados, televisões, cães, namorada, etc. Vale a pena ver.
O “sidetalking” foi tão característico do N-Gage que você pode entrar em vários blogs que falam do N-gage e você verá menções ou comentários sarcásticos mencionando o termo. A Nokia percebeu isso e quando lançou o novo aparelho, chamado N-Gage QD, corrigiu o “sidetalking” e fez uma brincadeira com os usuários. O vídeo você pode ver abaixo.
A brincadeira da Nokia teve um efeito contrário: o sidetalking foi potencializado pelo público. Os usuários começaram a debochar que queriam a “excelente idéia” da Nokia de volta. O N-Gage jamais conseguiria se desvenciliar desse termo.
Nokia QD
Muitos autores se perguntam o motivo da Nokia lançar um novo aparelho mantendo o nome que já estava associado a fracasso de vendas, design e hardware.
O Nokia QD corrigia muitos problemas do seu antecessor, mas ainda assim manteve a linha do fracasso da série. O fracasso do design Taco e de um smartphone com crise de identidade fez com que a Nokia cancelasse o desenvolvimento de um novo celular, o Nokia 7700. Curiosamente, o 7700 também teria o famoso “sidetalking”.
É interessante verificar algumas declarações malucas de pessoas da Nokia, sobre o aparelho. Gerard Wiener, gerente geral de desenvolvimento de jogos, disse antes do lançamento do N-Gage QD:
“Estamos estudando novas cores, uma nova aparência e um novo jeito para o QD, nos próximos meses”
Será que o público estava realmente preocupado com a COR do novo N-Gage?
Onde eles erraram?
Pesquisei bastante para escrever este artigo. E até agora não consegui encontrar nenhuma citação ou explicação da Nokia para indicar os motivos que os levaram a executar um projeto promissor de uma forma tão tosca. O projeto foi o foco da Nokia, a ponto de alocar seus melhores profissionais durante toda concepção e desenvolvimento.
O fato é que os celulares tiveram vida curta. A previsão de seis milhões de aparelhos vendidos (antes previsto só para o N-Gage, e depois para a soma do N-Gage + N-gage QD) jamais chegou perto de se concretizar. Números apontam para no máximo 2 milhões de aparelhos vendidos.
N-Gage foi associado sempre a adjetivos pejorativos, embora você encontre pessoas que o elogiem. O péssimo design e problemas de hardware fez com que os usuários associassem o aparelho a uma piada de mau gosto. Gamers e usuários do telefone não aprovaram o sistema.
Como disse Ewan, em seu post:
“O Siemens SX-1 foi concebido com o mesmo problema de game cards. Porém foi descartado logo no protótipo. Como é que a Nokia permitiu que isso fosse concebido no produto final?”
Note ainda o problema da própria concepção da idéia. Certos de que o futuro dos jogos em dispositivos móveis era promissor, a Nokia fez entrevistas com um nicho específico de pessoas: os americanos. O perfil deles não é uma tendência para o mundo inteiro, como a Nokia imaginou. Portanto a empresa partiu de preceitos não confiáveis para sua jornada. A empresa admitiu que realizou uma pergunta aos entrevistados, se eles se importariam com o “sidetalking”. E a resposta que receberam era “não”. Deu no que deu.
Para completar o circo, a logística de distribuição do produto foi bastante problemática. Pedidos eram feitos, mas não eram recebidos (problema que se estendeu até à plataforma do software), lojas não receberam o produto, enfim…
O produto foi descontinuado devido a aceitação do fato que o público e a imprensa especializada não mudaria sua opinião perante uma nova versão.
Posteriormente, o VP da empresa admitiu:
“Aprendemos que as pessoas querem jogar em todos os seus aparelhos. Então estamos integrando o sistema N-gage aos novos aparelhos da Nokia”.
O aparelho que sofria de crise de identidade logo foi deixado para trás pelo PSP, da Sony e o Nintendo DS, da Nintendo. No quesito telefone, não foi páreo para o iPhone. Perdendo nas duas frentes que deveria competir, o hardware foi descontinuado em meados de 2005/2006.
Como software, será descontinuado em Setembro de 2010. Será a data final de um produto promissor, de uma empresa promissora, que foi executado de uma forma inexplicavelmente irresponsável.
O N-Gage, como dizem alguns blogs, já saiu de fábrica com um enorme adesivo de FAIL. O aparelho é figura carimbada em qualquer TOP 10 ou TOP 5 dos piores celulares já desenvolvidos. E é assim que será conhecido na posteridade. Infelizmente, associado à marca Nokia.
Conclusão
Como uma empresa inovadora e inspiradora como a Nokia consegue desenvolver uma aberração como essa? Como eu disse, pouco se sabe dos motivos operacionais que a levaram a errar tanto. Arrogância? Ânsia de explorar e dominar um mercado promissor? Só o tempo dirá. O N-Gage foi um case de fracasso que a Nokia acabou nos presenteando para estudo.
Não foi um produto desenvolvido pensando no usuário (ou cliente). Como consequência, foi necessário o desenvolvimento de um novo produto (QD) para corrigir erros primários e crassos do original – e ainda assim retirando o rádio FM, por exemplo, o que desagradou uma grande parcela de usuários.
Produto funcional e entregue, outro valor ágil, teve uma nova conotação neste projeto. A definição de pronto abrangia monstruosidades como o SideTalking e o Game Cards Slot.
Foi um produto que tentou ser um console, um PDA e um telefone “all in one”. E não conseguiu ser satisfatório em nenhum dos seus objetivos.
Imaginem quantos milhões foram gastos neste projeto para só depois de anos eles admitirem o fracasso? Onde fica o “errar cedo para aprender”, nessa história?
Embora a Nokia só tenha implantado o Scrum e o Agile, pra valer, a partir de 2005, a empresa sempre teve uma essência ágil. E o projeto N-Gage, apesar de todos os cuidados que eles devem ter tido, foi um fracasso total.
Mas uma coisa vocês podem ter certeza: eles aprenderam com o erro. Os celulares da série N estão aí para mostrar como eles souberam virar o jogo e se tornar novamente uma empresa respeitada e admirada.

Na época não comprei pq não dá para jogar e atender o telefone, então não faz sentido ter os dois aparelhos em um só…. além disso, era caro demais….
Mesmo que pesquisas tenham sido feitas, me parece um belo caso de “achismo”, muito comum nas empresas, e principalmente, propagada por seres ditos “criativos”.
Ótimo post.
[...] This post was mentioned on Twitter by gisleine monique, Ponto Marketing. Ponto Marketing said: Dossiê (gigante) Nokia N-Gage: um case de fracasso – http://bit.ly/8KEo6y – Se tiver 2 horas livres, vale a pena ler. [...]
Bastava uma pesquisa de mercado correta para o N-Gate ter se tornado um case de sucesso!
voce e muito critico e esqueceu de resaltar as qualidades do ngage e o seu valor,hoje eu possuo um ngage classic e todos gostam dele e querem compra de mim.
eu sou infelismente o dono de um n gagemas o pior disso e o problema wsod(tela branca da morte) onde o celular praticamente se suicida nao liga por falta de memoria e a nokia nem resposta da.
eu sou infelismente o dono de um n gage mas o pior disso e o problema wsod(tela branca da morte) onde o celular praticamente se suicida nao liga por falta de memoria e a nokia nem resposta da.
Possuo um psp,ps3 e um n-gage..Acho que vc conversa demais o celular é otimo para jogos e para tudo..afff
Bruno Silva! concordo com vc! As pessoas gostam de criticar demais! Nada pra elas está bom! Imagina se td fosse como antigamente q nem celular nem video game portatil existia? Talvez se alguns vivessem nesta época, parassem de reclamar um pouco das coisas!
i used to like the ngage. but then i took an arrow in my knee.
e isso ai eu tambem tenho um n-gage classic e um n-gage qd e sao otimo eu amo a n-gage queria que isso tivesse continuado prefiro 1000 vezes jogar num n-gage que no nintendo ds so pesso que pensem um pouco antes de falar tao mal dos n-gage
Eu tb tive um n-gage e amava jogar com ele!!!para a epoca nao existia nada melhor que esse 3 em 1!!!
Li o que escreveste.. e so mostra que nao tiveste nenhum n-gage .. o grande problema do n-gage foi o seu preço inicial.. que era mesmo muito caro… e ele nao valia o dinheiro.. se o n-gage fosse barato toda a gente jovem adepta de jogo iria ter um.. queres comparar 1 n-gage com 1 gameboy? antes de escreveres noticias informa-te…
[...] Nokia N-Gage: um case de fracasso [...]