Empreendedorismo – Parte 3/4 « Agile Way
8 de Fevereiro de 2010

Empreendedorismo – Parte 3/4

Vimos que o “quadrado mágico do empreendedorismo” é composto por: ideia, projeto, pessoas e dinheiro. Destes quatro conceitos, existe um que você precisa pensar com muito carinho, pois é a partir dele que o seu longo prazo se desenvolverá. Sim, falo das PESSOAS.

Se você já lê este blog há algum tempo, deve perceber como ele é praticamente todo orientado a construção de resultados através das pessoas. Mas será que podemos usar as mesmas iniciativas quando estamos começando uma empresa?

Você pode ter uma grande ideia. Pode ter dinheiro para investir nela. Pode ter um projeto de longo prazo. Mas se não tiver pessoas para realizar tudo isso, de nada adiantará. Essa é uma máxima um tanto óbvia. Porém, se você pensar bem, poderá questionar: “E as pessoas desmotivadas, realizam tudo isso?”.

Nenhum empreendedor começa um projeto sem pessoas envolvidas. Não, não estou falando de colaboradores. Mas de todo “ecossistema” que nos rodeia: clientes, sócios, colaboradores, parceiros, colegas, amigos… e é por isso que, a primeira coisa que um empreendedor deve ter em mente é: NETWORKING.

Saber fazer um bom networking, hoje em dia, não requer muito esforço. A internet está aí para auxiliar a todos! Você pode usar seus colegas de educação e cursos, como faculdade, pós-graduação, cursos, workshops. Pode usar contatos profissionais através de redes sociais genéricas, como Orkut e Facebook. Ou ainda pode buscar redes sociais mais específicas, como as redes do Ning de revistas como Você S/A, Exame, Exame PME. E ainda o LinkedIN.

E eu nem pensei muito para sugerir isso. Se você procurar, encontrará fóruns de discussão sobre empreendedorismo, sobre tecnologia, administração, etc. além dos diversos blogs e revistas especializadas. Enfim, hoje em dia só não faz networking quem realmente não quer (e precisa não querer mesmo!).

Ainda sobre pessoas, vou discorrer um pouco sobre alguns itens que você precisa lembrar quando pensa em empreender.

Liderança

A primeira coisa que nós aprendemos quando criamos um negócio próprio, é que não existe ninguém mais acima de nós (ok, a menos que você seja religioso – Deus -  ou fatalista – o governo). Portanto, qualquer decisão que tenha que ser tomada, você será a última instância. Todas as pessoas enxergarão a sua empresa olhando para você!

Sendo assim, como você se enxerga como líder? Isso é muito importante de pensar. Sua empresa será construída com base na sua atitude como líder. Se você for alguém que enxerga o líder como “alguém que manda”, sua empresa acabará tendo uma veia autocrática. Se você for um líder “servidor”, isso também se refletirá na sua empresa. Como? Ora, você acabará, inconscientemente, contratando pessoas que você simpatize, que estejam próximas ao seu perfil.

Mas lembre-se: em uma empresa onde todos concordam, apenas um é necessário. Trazer pessoas com mentalidades e experiências diferentes pode ser uma excelente iniciativa. Pessoas com mentalidades e experiências diferentes, mas com valores iguais, são raras. Mas existem.

A tomada de decisão não precisa ser autocrática nem democrática. O meio termo é interessante neste caso. Afinal, é a SUA empresa, no final das contas. Depois não vai adiantar você apontar para seus colaboradores e “dividir” a culpa pelo fracasso com eles. Mas, como já vimos no capítulo das ideias, ouvir opiniões é sempre muito importante. Suas decisões afetam a todos da empresa, portanto não seja orgulhoso e egoista a ponto de estar acima do bem e do mal.

Motivação e clima

Se você ler o livro “Start up” (se não leu, leia!), verá que um dos comentários recorrentes dos entrevistados é das pessoas comentando da saudade que eles tem da época em que a empresa era uma mera start up. Não há dúvidas de que o começo é sempre mais divertido.

O motivo é óbvio: no começo, tudo é caótico e improvisado. E todos gostam! Não existem formulários, relatórios, reuniões excessivas, avaliação de performance, processos, procedimentos, manuais e outras burocracias comuns de empresas que começam a crescer.

A burocracia (no sentido de burrocracia) costuma matar muitas empresas, pois corroi as pessoas que lá trabalham. O clima divertido, criativo e caótico, antes existente, agora se tornam formal e rígido. Mesmo que para os donos não pareça.

Aliás, os próprios empreendedores acabam mudando também. Precisam delegar com mais frequência, e com isso se protegem criando relatórios e reuniões. Se afastam das pessoas para cuidar de coisas “mais importantes”. Você, certamente, conhece ou já trabalhou em alguma empresa assim, não é?

Uma startup é um atrativo para muita gente. Principalmente quem abraça a aventura na mesma paixão que o empreendedor. Que tal lutar para manter esse clima pelo máximo de tempo possível? Ninguém melhor do que o dono para ser o porta-voz da manutenção dessa atitude na empresa.

Lembre-se que isso irá afetar diretamente a motivação (e consequentemente a produtividade) dos seus colaboradores. Esteja sempre aberto para as mudanças. Mas mude com responsabilidade. Como nos métodos ágeis: só mude, se isso gerar um valor claro.

Sócios

Este é, talvez, um dos assuntos mais complicados de todos. Os brasileiros costumam ter a cultura de só empreender com algum sócio. Talvez sintam a necessidade de compartilhar o projeto com alguém. Ou talvez acabe sendo por necessidade mesmo. Mas normalmente esquecem que o sócio é uma outra pessoa. Normalmente bem diferente.

Imagine as empresas familiares. Agora tente lembrar de quantas vocês conhecem que dão problemas devido aos sócios (irmãos, pai e filho, etc). Ora, se os problemas entre sócios acontecem entre pessoas do mesmo sangue e da mesma educação, o que dizer de amigos ou conhecidos?

Os sócios dividem as responsabilidades e despesas, é verdade. Mas também dividem os lucros e dividendos. Muitas pessoas só pensam nos sócios no período em que tem que gastar. Então basta a empresa gerar lucros, para acontecerem os questionamentos comuns. Dois deles:

a) “Por que eu tenho que dividir 50/50 com o meu sócio, se EU trabalho mais do que ele?”

b) “Por que meu sócio insiste no projeto X, se é óbvio que a minha ideia do projeto Y será mais rentável?”

O caso (a) é mais comum do que se parece. E o pior é que normalmente os sócios esquecem que acertaram as coisas dessa forma. A pessoa que ficou responsável pela parte operacional, acaba achando que trabalha mais do que aquela pessoa que ficou com a parte de vendas e marketing, por exemplo. E as relações iniciam um processo de deterioração que são sucedidos por ironias, desentendimentos, brigas e, por fim, dissolução da sociedade (normalmente seguido de ações na justiça).

O caso (b) apresenta um problema comum no crescimento da empresa. Se no início ambos trabalharam na mesma ideia, com o crescimento cada um vai ter ideias diferentes para os rumos a serem seguidos. E como resolver isso, caso algum dos sócios tenha uma personalidade mais forte?

Sou contra a ideia de ter sócios, então? Não. Mas eu acho que é preciso ter bom-senso. Muito bom-senso.

Uma máxima que existe diz que um sócio deve complementar o outro. Eu acredito nisso. Uma sociedade precisa ter pessoas que se completem para transformar aquela ideia em um projeto de sucesso. Portanto, se você for bom em vendas, procure alguém bom na parte técnica. E assim por diante.

Procure alguém que você conheça, de preferência que você já tenha convivido ou trabalhado anteriormente. Conhecer essa pessoa no dia-a-dia é muito importante.

E tente deixar claro, de preferência no papel, as atribuições de cada um e, principalmente, as ações que serão tomadas caso a empresa não dê certo. Essas definições são importantes! E se forem decididas no início, quando todos estão ainda com ideias homogeneas, tudo será mais fácil. É o passo para, se houver uma dissolução da sociedade, que ela ocorra sem traumas.

Não cometa, portanto, o erro de procurar um sócio para dividir as despesas. Aliás, se possível, tente levar o seu projeto sozinho. Faça o uso do seu networking para dividir problemas e decisões, se for o caso.

Colaboradores

Sejamos sinceros: você vive no Brasil. Este é um dos piores países para se empreender, no mundo. Para cada lei que dá uma pequena força aos empresários, surgem pelo menos 10 outras leis que beneficiam os trabalhadores e oneram os empresários.

Um grande dilema que estou vivendo, atualmente, é como contratar. Vejam, estou começando a empresa. Preciso de pelo menos duas pessoas para me ajudar no projeto. Pretendo pagar um salário razoável, condizente com o contexto.

Mas coloco no papel e vejo o seguinte:

a) Estágio. A forma mais barata. Porém, a nova lei diz que uma empresa só pode ter um estagiário se tiver um funcionário ao menos. E só pode contratar outro estagiário, quando tiver pelo menos cinco funcionários. Pela lei, estou proibido de ter estagiários para iniciar o meu projeto.

b) CLT. A forma mais justa. Porém, mais cara. Uma empresa que está começando e que precisa conter ao máximo os gastos para sobreviver no primeiro ano, não pode se dar ao luxo de pagar mais 100% do valor do salário, ao colaborador. Isto é, quanto maior o salário que o empreendedor resolver pagar ao seu colaborador, maiores serão as taxas. E se o projeto não der certo e ele tiver que fechar, novamente será onerado.

c) Terceirização. A forma mais prática. Paga-se um valor ao colaborador, e ele quem toma as ações para pagar os impostos. É, talvez, a forma mais justa de trabalhar. Porém, o governo aperta o certo contra isso, pois sai perdendo. O governo tem olho grande, e cria várias leis para inibir essa prática. Um colaborador mal-intencionado pode, agora, pleitear na justiça que trabalhava como CLT na verdade. E o empreendedor se quebra, novamente.

Enfim, tenha a certeza que você gastará a maior parte do seu investimento nas pessoas. Isso não seria ruim se não fosse pelo fato de que você gastará boa parte deste investimento com todo ecossistema que está além do seu colaborador. É realmente uma pena que isso aconteça.

Bom, mas digamos que você conseguiu encontrar a melhor forma de contratação. Como você fará a seleção? Buscará pessoas mais técnicas? Mais entusiasmadas? Mais criativas? Isso deve estar alinhado com o que você pensa para o seu projeto.

Não importa a área de conhecimento da pessoa. O que você deve considerar MESMO é se essa pessoa tem ATITUDE. Lembre-se, você está começando a sua empresa! Você precisa de alguém que tenha o mesmo fogo e paixão que você. Até mesmo alguém que você possa se apoiar, caso algo não saia como o esperado (e isso vai acontecer!).

Use todo o tempo que você puder para selecionar os felizardos que irão trabalhar em seu projeto. E os municie de tal forma que eles se sintam parte do todo. Essas pessoas que começam com você serão as mais importantes que você terá, no longo prazo. Serão elas quem o ajudarão a construir a sua empresa. Será que você será reconhecido pela qualidade? Pela presteza no atendimento? Pela inovação?

Não economize nas pessoas. Escolha pessoas que você sinta que podem oferecer muito. E invista nelas. Invista MESMO. Não só com dinheiro, mas com conhecimento.

Lembre-se do feedback também. Você será pequeno no começo, então poderá incentivar ou corrigir algum problema com seus colaboradores, no ato.

Um dos grandes desafios que você terá é descobrir o tamanho mínimo ideal para sua empresa funcionar. Foque em uma organização “lean” e, se possível, NÃO CRESÇA! A menos que isso traga benefícios reais. Quanto maior o número de pessoas, mais complexo se torna o ambiente. Essa agilidade que sua empresa startup proporciona, no início, deve ser buscada sempre. Lembre-se disso.

Clientes

Se você não atender bem seus clientes, eles irão embora. Ponto.

Se você não escutar os seus clientes, então seu serviço não agregará valor suficiente. Ponto.

Se você não for transparente com seus clientes, sua relação com eles será uma mentira. Ponto.

É sempre bom começar com frases de impacto. Mas acho que é melhor ser cru e direto quando se trata de clientes. Porque todos nós já fomos funcionários e tivemos que lidar com clientes que pareciam chatos. Já recebemos ordens “lá de cima” para fazer coisas que achávamos idiotas para os clientes que nem conhecíamos.

E tudo isso nos fez criar uma certa aversão de clientes. Ainda mais de mudanças de clientes.

Como empreendedores caberá a nós esquecermos completamente desse pesadelo do passado. Clientes são bons, mesmo quando são ruins! Ok, a não ser que o cliente seja realmente ruim, a ponto de você praticamente parar toda empresa para atendê-lo, talvez você possa reconsiderar essa frase.

Não importa qual é o seu projeto, você precisará atender necessidades dos seus clientes. E quem detém a informação essencial? Eles, oras. Logo, é da sua responsabilidade garantir que as mudanças sugeridas pelos seus clientes são realmente benéficas para eles, atendendo seus pedidos sempre que forem. Caso não sejam, seja transparente com eles. Mostre e comprove como aquilo não será útil.

Um bom atendimento ao cliente, hoje em dia, é essencial para mantê-los. E isso não significa apenas responder rapidamente. Mas sim, ser também eficiente e atencioso. O cliente está investindo capital dele no seu projeto, acreditando que terá uma necessidade atendida. Ele poderia muito bem investir esse dinheiro em outra pessoa, mas escolheu você! Qual é o motivo para você tratá-lo mal?

Aliás, caso você ainda não tenha sido apresentado à web 2.0, lembre-se que sua imagem pode ser destruida com apenas um cliente mal-atendido. Se você não acredita, pesquise um pouco em redes sociais como Orkut, sobre aquela câmera “tudo-em-um” chamada Tekpix, e meça rapidamente o grau de satisfação dos clientes. Ou então no Twitter, busque por marcas de empresas de telefonia. A não ser que seu serviço seja tão essencial a ponto de que mesmo clientes insatisfeitos ainda o utilizem, não se dê ao luxo de tratá-los mal.

E mais do que tudo: conscientize seu pessoal da importância dos clientes para a empresa. Talvez isso seja a coisa mais importante e mais difícil a ser feita. Mas não desista: não é impossível.

Conclusão

Com certeza esse será o maior capítulo dessa saga de “Empreendedorismo”. É comum os empreendedores esquecerem a importância das pessoas para a sua empresa. Conhecemos muitos casos onde isso é evidenciado, mas, felizmente, conhecemos casos onde o oposto ocorre também.

Saber escolher e valorizar seus colaboradores, escolher BEM o seu sócio – se for o caso, conhecer o seu perfil de liderança, manter um networking ativo e entender e atender bem o seus clientes são de extrema importância para o futuro da sua empresa.

Mas ainda existe mais um vértice que precisa ser considerado. Ele é o “óleo” que faz as engrenagens funcionarem corretamente. Estamos falando dos recursos financeiros… ou o dinheiro.



3 Comentários para “Empreendedorismo – Parte 3/4”

  1. Muito criativo Flávio! Se todos os empreendedores pensassem em criar seus próprios métodos a vida seria muito mais divertida.

  2. rafael diz:

    Sem dúvida ficou muito bom. Fácil compreensão e texto bem organizado. Parabéns

  3. Gustavo Haertel Grehs diz:

    Conheci teu blog uns 3 meses atrás e os assuntos abordados fizeram com que ele entrasse para os meus rss´s. Desde então acompanho teus artigos e tu estás de parabéns. Como empreendedor há quase 8 anos, posso afirmar que a tua série de Empreendedorismo está muito didática e objetiva.

Comentar