Equipe multidisciplinar « Agile Way
22 de Março de 2010

Equipe multidisciplinar

Uma das características principais do “novo modo de trabalhar” tem a ver com a utilização de equipes multidisciplinares. Diversas empresas que dependem de criatividade e inovação vem utilizando este conceito no seu dia-a-dia.

Você sabe o que são estas equipes e quais são os benefícios de tê-las em sua empresa? Acredite, é mais simples do que parece.

Antes de mais nada, vamos diferenciar uma equipe multidisciplinar de uma equipe multifuncional.

Em uma empresa de software, existe uma equipe de cinco programadores. Apesar de programadores, cada um desempenha uma função diferente na empresa: um faz a programação de interfaces, outro faz a programação back-end, outro faz a programação de scripts, e assim por diante. Apesar de trabalharem em funções diferentes, eles ainda são programadores, com o mesmo background técnico.

Esta é uma equipe multifuncional.

Em uma agência digital de web existe uma equipe composta por um programador back-end, um programador de interfaces, um designer, um gerente de projetos, um gerente de contas e um produtor. Todos trabalham em funções diferentes, mas possuem backgrounds completamente diferentes: dois são técnicos, um é artista, um tem a visão geral do projeto, outro tem a visão do cliente e outro é responsável pelas ideias criativas.

Esta é uma equipe multidisciplinar.

O pulo do gato em uma equipe multidisciplinar está exatamente no background de cada um.

Num ambiente onde só técnicos discutem, é normal que o raciocínio seja quase sempre lógico, ou da mesma forma. A linguagem também é a mesma, podendo ser bastante técnica. Isso induz às pessoas a enxergarem o projeto, o problema e as soluções pela mesma ótica. O óbvio acaba se tornando quase que um mal necessário.

Já num ambiente multidisciplinar a discussão costuma tomar caminhos completamente diferentes. Em primeiro lugar, um designer, ou técnico ou um gerente de projetos não irão utilizar a mesma linguagem que falam entre seus pares. Pois isso tornaria a discussão totalmente indigesta para os demais. O simples fato da pessoa ter que utilizar uma linguagem mais coloquial e simples, já o faz caminhar pelas suas próprias crenças e motivações por um outro caminho.

Adicione a isso o fato de que outras pessoas com experiências, conhecimentos e pensamentos diferentes estarem ouvindo o problema e raciocinando-o com as suas próprias visões. Os insights que surgirão ultrapassarão a barreira do óbvio. As soluções serão propostas por outros caminhos até então não imaginados. E os resultados costumam ser demasiadamente criativos e diferenciados.

Uma equipe multidisciplinar é, portanto, uma forma de resolver problemas e trazer soluções de uma forma mais rápida, criativa e eficaz. E não é um exagero. Para isso, vou me basear em dois casos:

Li na revista Wired que um centro de pesquisas biológicas nos Estados Unidos estava estudando o comportamento de uma determinada proteína. O problema é que eles necessitavam “coar” esta proteína, utilizando um aparelho complexo. E esta proteína, infelizmente, não se separava das demais substâncias da forma correta. Devido ao tempo que tinham, o grupo de pesquisa tentou resolver o problema dividindo os pesquisadores em dois grupos. Um deles era um grupo multifuncional, composto por cientistas especialistas naquela proteína. O outro era multidisciplinar, composto por cientistas de diversas naturezas.

O grupo multifuncional trabalhava de forma teórica, discutindo por horas, dias e semanas as formas como deveriam abordar e atacar o problema. Depois de muita discussão, resolviam aplicar os testes e … falhavam. Recomeçavam do zero e voltavam para o mesmo processo. Eles levaram meses para resolver o problema.

O grupo multidisciplinar trabalhava de forma menos teórica. Durante as reuniões acontecia exatamente o que foi citado (o problema era abordado por uma linguagem mais simples) e as discussões eram trazidas sobre óticas diferentes. Eles decidiram colocar em prática logo alguns testes. E com base nos resultados, eles foram analisando e aprimorando. Chegaram à solução em poucas semanas.

O segundo exemplo é pessoal.

Quando trabalhei em uma agência digital, recebi um projeto que tratava da construção de um grande empreendimento na cidade.  Usualmente eu fazia uma rápida reunião de briefing com todos envolvidos (multidisciplinar) e em seguida o projeto seguia no modelo “cascata” onde cada disciplina aguardava sua parte e executava.

Mas daquela vez , pelo tempo que tínhamos, decidi envolver todos (programadores, designers, produtores, gerente de conta) em todas as reuniões. O efeito dessa pequena mudança foi absoluta: as reuniões duravam em média 30-40 minutos, e eram muito produtivas. Os produtores, responsáveis pela parte criativa, traziam suas ideias do projeto. Designer e programadores já davam o feedback na hora, bem como o gerente de conta, que representava o cliente. Estes feedbacks não eram apenas “gostei” ou “não gostei”, mas mais do que isso: eles acrescentavam sugestões (boas ou ruins, não importava) e já podiam dar as suas visões sobre o cenário proposto.

Se o designer sugeria colocar um botão arredondado com um efeito tal, o programador já na hora dizia se era viável fazer aquilo de uma maneira simples, dentro do prazo. Essa discussão já fazia com que o produtor viesse com uma ideia de usar fotos dos usuários ao fundo. Que já tinha o seu pré-layout rabiscado pelo designers e na hora decidíamos se aquilo poderia funcionar ou não. Caso alguém não concordasse com a ideia, a discussão era estendida até que o seu argumento fosse assimilado pelos demais, ou esta pessoa simplesmente enxergasse a solução como correta.

A energia foi tão boa e tão grande que a proposta foi aceita com satisfação pelo cliente, o projeto foi desenvolvido em tempo recorde e, mais do que nunca, todos envolvidos se orgulhavam e se motivavam com o resultado. Infelizmente o empreendimento ao qual o projeto fazia referência acabou sendo embargado, e o lançamento do projeto – que envolveria um evento especial, também foi adiado por tempo indeterminado. Todos envolvidos no projeto, quase 1 ano depois, lamentavam o fato de não poder tê-lo colocado no ar e recebido o feedback do público. A ansiedade era grande.

Tenho esta experiência como muito bacana e como a consolidação de que a interdisciplinariedade funciona e muito bem. E mais do que isso. É simples, barato e está ao alcance de todos. Não é preciso nenhuma técnica para utilizá-la. Apenas o respeito das opiniões e o incentivo para que todos falem o que pensam, independente se for correto ou não.

Uma equipe multidisciplinar, portanto, pode ser o combustível que faltava para motivar alguns dos seus colegas e colaboradores. Pode ser o responsável pelas suas novas soluções e inovações. Tudo o que você precisa é pôr isso em prática. Experimente. E compartilhe a sua opinião sobre o assunto.

Um abraço!



6 Comentários para “Equipe multidisciplinar”

  1. Aline Nascimento (@SraHirayama) diz:

    Este é, com certeza, o modelo de empresa que acredito: que se comunica, que dá espaço para idéias que, mesmo que pequenas, podem resolver problemas-bola-de-neve. Nossos piores erros sempre começam com aquela pedrinha que a gente não viu…

    Pq é tão difícil os “líderes”, gestores e empreendedores verem que a empresa ou o projeto só tem a ganhar com essa intensificação da comunicação (com foco, claro!) ? Uma primeira teoria, aqui de bat-pronto, é a questão do orgulho de cargo, de posto, de que “como pode uma sugestão tão simples do programador junior resolve um problemão do projeto” ? Não, inadmissível ! Aí vai o gestor contar a idéia como sendo a dele. E outra teoria, de bat-pronto, é o medo de intermediar, mediar, uma reunião dessas. Quem, nesta empresa “quadrada” tem um pouquinho de inteligência emocional para começar a aplicar isso na empresa ? O que fazer quando todos tem medo de colocar o “seu” na reta ?

    O trabalho é sempre de cima para baixo…

    Flávio, mais um vez: SHOW !

  2. [...] Equipe MultiDisciplinar - Flavio Steffens (Agile Way); [...]

  3. Alexsandra Medeiros diz:

    Interessante a idéia apresentada.
    Precisamos de uma equipe multidisciplinar na Leosoft (empresa onde trabalho), pessoas que tenha a visão de cliente, para que os softwares possam ser desenvolvidos voltados para a necessidade do negócio do cliente e não para uma equipe técnica.

  4. Edson de Lima diz:

    Realmente, a ideia de equipes multidisciplinares tem ganhado muita força nos últimos tempos. Um livro que li recentemente, A Sabedoria das Multidões, de James Surowieick, traz exemplos de como equipes assim tem poder, quando aplicadas algumas características: Diversidade, Independência, Descentralização e Agregação. O livro diz também que organizações verdadeiramente democráticas tentem a desenvolver tais características, mas deixa claro que o estilo antigo de gestão, comando-e-controle, de cima para baixo, não são exemplos de incentivo à isso. A multidisciplinaridade só funciona se as pessoas tiverem como tomar suas próprias decisões, objetivando a solução de determinado problema. Por isso, @Ale, sempre digo: O “Cliente” (ou alguém que o represente muito bem) deve estar sempre presente. ;)

  5. Dora Maia diz:

    Na busca pelo atendimento humanizado, a equipe muldisciplinar é fundamental, pois a intensificação da comunicação resulta na minimização dos problemas ou na resolução dos mesmos.

  6. [...] uma equipe multidisciplinar, achei que a empresa estava com a formação ideal para pegar novos clientes. Agora daríamos conta [...]

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