Reflexões de uma estadia no hospital « Agile Way
4 de Maio de 2010

Reflexões de uma estadia no hospital

Decidi escrever este post aproveitando que no momento estou deitando em uma cama de hospital, fazendo um tratamento para uma leve trombose no meu pé esquerdo. Sim, você não leu errado. Isso pode mesmo atacar aqueles que não são considerados “idosos”.

Fica o alerta: não fique sentado por muito tempo. Isso pode acontecer com você. Me use como exemplo, se for o caso.

Aproveitei esse período para refletir um pouco sobre algumas situações do dia a dia. E gostaria de compartilhar com vocês. Acredite, talvez você mude a forma de encarar a sua forma de gestão.

Acho que o primeiro vale uma contextualização do que aconteceu.

Estava eu realizando, na última sexta-feira dia 30/4, as últimas entrevistas para fechar a equipe da minha empresa. Depois de uma longa (e difícil) seleção, consegui fechar a equipe. Mas no mesmo dia, fui até o Hospital São Lucas, da PUCRS, para realizar uma avaliação do que estava acontecendo com o meu pé, que estava inchando aos poucos.

Recebi a notícia que estava com uma pequena trombose no pé e que, felizmente, era localizada. E já me internaram para tratamento no mesmo dia. Foi uma grande surpresa e um baque, naquele momento. “Internação??”

Opa! É nesse momento que a vida dá aquela guinada que a gente nunca espera. Até meia-hora atrás eu estava mau-humorado com a demora para fazer a simples ecografia (que depois constatou o problema). Naquele momento, tudo se limitou a imaginar o que aconteceria a partir de então. Ficaria internado imóvel na cama? Com soro? Cirurgia?

Devido ao bom e velho problema de todas as cidades brasileiras, sem leitos suficientes para atender a população, tive que aguardar o meu quarto na enfermaria. Das 15h até as 20h, quando finalmente fui removido ao leito. Nesse período de 5h de enfermaria, pude presenciar o vai e vem das pessoas com sentimentos variados como ansiedade, sofrimento, tristeza e alívio. Eu mesmo tive um pouco de cada.

Este é o momento em que nós paramos por um tempo e percebemos que somos apenas uma poeira cósmica, ou menos filosoficamente falando, apenas uma formiguinha qualquer em um formigueiro de centenas de milhões.

Durante quase todos os 365 dias que temos por ano, nossa vida é orientada a trabalho, pressão, prazos, clientes, ganhar dinheiro, não perder dinheiro, comprar eletrônicos, jogar videogame, beijar, transar, flertar, beber, se divertir. Algumas vezes nos encontramos em estado tão favorável que nos sentimos invencíveis.

Daí basta uma notícia como a minha, para a realidade dar um tacada de beisebol na nossa cara. “Acorda! Você é um nada!”. Sempre achava um chavão aquelas pessoas que falavam coisas do tipo “viva cada momento intensamente” ou “aprenda com o passado, viva o presente e aguarde o futuro”.

E são nestes momentos que representam um curto período de toda nossa vida, é que nos abraçamos nestas afirmações. É o momento onde paramos e olhamos que dinheiro, eletrônicos, sexo, trabalho, carros importados, futebol e afins são meros acessórios. O que realmente importa é a nossa saúde e, principalmente, nossos amigos e nossa família.

Não estou aqui dizendo que tive uma epifania, e agora irei me converter na reencarnação da Madre Teresa. Não é isso.

Introduzo esse contexto para mostrar como os relacionamentos são importantes. São os amigos que nos dão força, nos animam e nos prometem (e nunca cumprem) uma festa quando sairmos do hospital. São os familiares que param a rotina diária da vida deles para ficar ao nosso lado, segurar nossa mão, trazer conforto quando há dor e principalmente demonstrar como somos importantes. E são algumas pessoas anônimas que atuam como verdadeiros anjos, sem sequer saber alguma coisa sobre nós.

Imagine quantas pessoas em situações piores do que as minhas passam por uma emergência de um hospital. Estive ali, como mero espectador esperando meu quarto, por 5 horas. E foi uma lição que eu jamais esquecerei. A adolescente manhosa que estava com uma sonda no nariz (que deve doer!) e gemendo e pedindo para retirar; a estudante de odontologia que estava sendo medicada na veia com muita dor; o rapaz com fortes dores com pedra nos rins; uma senhora que teve um derrame e perdeu completamente  coordenação motora. E a velhinha que teve um mal súbito, e ainda baixou hospital com seu marido que estava em um estado muito,muito grave.

Esta velhinha, aliás, estava acompanhada de toda família. A cada momento ela queria saber do seu marido, já que eram casados a 53 anos. Os três filhos faziam o possível para consolá-la, inclusive quando percebiam que ela se emocionava, mudando de assunto para animá-la. Seus familiares foram os pilares que a sustentaram para manter as forças e a calma, naquele momento.

E no meio deste caos todo, haviam os anjos anônimos: as enfermeiras e os médicos. Estes seres que em sua maioria são iluminados, que nos trazem uma lição de vida.

Em 5 horas de emergência, como observador, eu vi a enfermeira Márcia tratar a todos com dedicação e atenção necessária. Desde os que chegavam esbravejando por não receberem atendimento, até os que chegavam com dor, ou estavam tímidos para falar qualquer coisa. A enfermeira, junto com sua equipe, não demonstrava nenhuma ponta de raiva ou “saco-cheio” por ter que responder as mesmas perguntas 10x, ou por ter que acalmar a mesma pessoa as mesmas 10x. E ela lida com isso diariamente. Sempre no mesmo humor.

Havia um médico, chamado Dr. Claus, que ao ser visualizado fisicamente parece um oficial da Gestapo alemã. Alemão, alto e forte, com uma voz de trovão, ele chega e chama a atenção em seguida. Essa dureza toda era quebrada com brincadeiras que levam às gargalhadas a todos que estão em volta. Nada caricato, nem de mau gosto. Mas brincadeiras que me fizeram enxergá-lo como uma espécie de Patch Adams porto-alegrense-alemão.

Sua forma de enxergar o mundo é resumida com a seguinte frase:

Eu não trato doenças. Eu trato as pessoas que tem as doenças.

E é verdade. O clima de um hospital é pesadíssimo. Angústia, doenças, tristeza e ansiedade. E todos esses sentimentos não são causados pela doença, mas pelas pessoas. Tratando estas pessoas primeiramente, através de um tratamento mais pessoal e alegre, estes sentimentos se minimizam e a doença se torna mais simples de ser tratada.

Um bom médico e um bom enfermeiro, antes de mais nada,  precisam gostar demais de pessoas. Precisam respeitá-las e entendê-las. E isso garante o sucesso de um tratamento.

Lembro de uma passagem do filme “Patch Adams” onde o médico com sua turma conversam sobre um paciente na frente dele, sem dar a menor importância. E então o Patch Adams levanta a mão e diz ter uma pergunta: “Qual era o nome do paciente?”. O médico se atrapalha e responde “Mas o que isso tem a ver?”. O paciente então sorri, ao perceber que deixou de ser um objeto e se transformou em alguém. Toda filosofia do Patch Adams, aliás, é baseada na alegria. Não vou entrar em detalhes sobre se é válido ou não, mas o fato de ele entender que está tratando de PESSOAS e não de DOENÇAS apenas, traz a tona todo a discussão sobre respeito e civilidade.

O que talvez você nunca tenha pensado a respeito, é que os médicos e enfermeiros não fazem mais do que a obrigação deles. Alguns se sentem ofendidos quando entregamos presentes ou agradecemos de forma assintosa. A missão deles é fazer com que uma pessoa que dê baixa no hospital, saia dali renovada.

O que quero dizer com tudo isso? Não leve a vida muito a sério. Não se esqueça de que o mais importante são as amizades e os familiares. Não gaste energias com o que não precisa ser gasto. Valorize mais estes profissionais dos quais só damos valor quando nos convém.

E principalmente, lembre-se que você vive em sociedade. Todas as pessoas tem sentimentos e fraquezas. Erram e acertam. Mas normalmente, se esforçam para fazer o bem. Por isso, principalmente se você for um líder e tiver pessoas que dependam de você, não esqueça de que suas palavras e atitudes poderão potencializar e muito o resultado que vocês querem atingir.

Engraçado, eu confesso que nunca escutei ninguém falar para um médico uma frase tão dita no ambiente corporativo: “Não fez mais do que a sua obrigação”. Se você acha que trabalhar bem não é mais do que a obrigação, você não serve para líder.

Quanto a mim, sigo mais alguns dias aqui. Aproveitando para fazer uma dieta.

Refletindo, passando o tempo e papeando com meu companheiro de quarto e os enfermeiros do andar.



9 Comentários para “Reflexões de uma estadia no hospital”

  1. William da Rocha diz:

    E ae rapaz, muito legal teu texto! Infelizmente nós só percebemos essas coisas quando estamos nesse tipo de situação né?
    Cara tudo de bom ae pra ti( continue se recuperando bem ae do pé ;) ) e um grande abraço!

  2. Caracas!!! Está melhor já?

    Vi pelo tweet do William.

    Percebi um pouco disso no ano passado quando a minha vó teve que ficar internada alguns dias na UTI e no quarto. E também quando a mãe fez uma cirurgia.

    Essas pessoas tem o dom de cuidar das outras. É um trabalho árduo, mas como muita gente diz, alguém tem que fazer.

    Te cuida cara!
    Grande abraço e melhoras!

  3. [...] This post was mentioned on Twitter by Sandro Santos, William da Rocha. William da Rocha said: Excelente texto do amigo @flaviosteffens http://migre.me/BSX3 [...]

  4. Olá, Flávio. Parabéns pelo texto, aproveita para ler o livro do Dráuzio Varela, O fio da navalha. Numa das passagens desse livro, ele conta uma conversa com um maranhense em estado de câncer terminal, que filosofou “a beira do barranco é que faz o cavalo ficar esperto”. Infelizmente, é assim, a gente enxerga melhor as coisas somente quando chega na beira do barranco, e percebe tudo isso que você conta na postagem. Eu, com meus cálculos renais, idas e vindas a hospitais, solidariedade de pessoas simples na mesma situação, já pude também refletir sobre tudo isso. E, ai, a gente chega na familia, que é o que nos ampara em qualquer situação e em qualquer lugar. Boas melhoras, abraço

  5. Federico Delgado diz:

    Cara, melhoras! Parabéns pelo texto e pela chamada no finalzinho do texto…

    “Engraçado, eu confesso que nunca escutei ninguém falar para um médico uma frase tão dita no ambiente corporativo: “Não fez mais do que a sua obrigação”. Se você acha que trabalhar bem não é mais do que a obrigação, você não serve para líder.”

  6. Betania diz:

    Li o teu texto, e me senti descuidadando da minha saude por estar empurrando pra frente uma cirurgia de vesícula que devo fazer o quanto antes…e que estava sendo prorrogada por conta de nao querer parar uma semana com o meu trabalho, academia, etc… Realmente nao podemos deixar nossa saúde, que é o nosso bem, para depois. Boas melhoras para ti, e para mim dia 18, quando me opero!

  7. [...] o chuveiro do quarto. [20:01] Reflexões de uma estadia no hospital. Onde os valores se alteram. Leia aqui o artigo escrito por mim. [21:35] Talvez todo líder devesse passar uma semana no hospital. [22:11] Bueno, boa noite a [...]

  8. Joseane diz:

    Não sei porque razão sua foto apareceu numa busca por sobrados, então resolvi ler sua reflexão, espero que esteja melhor, quanto à trombose, sim… é verdade esta doença está atacando pessoas cada vez mais cedo, então vegetais, cereais, fibras, alimentos que contenham ferro devem fazer parte da dieta alimentar, e fontes de vitamina “K”, recentemente descoberta e principal fonte auxiliar na coagulação sanguinea. Então até mais!!

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